A cantora do millennium não poupa palavras

Updated: Nov 13, 2018


Elza Soares sempre teve voz. Voz para cantar e voz para falar. Falar sobre tudo. Sobre a carreira ou sobre seu papel na vida. Desde pequena, batalhou duro para conseguir o respeito que a acompanha até hoje. Superou as maiores perdas possíveis e continua caminhando, sempre olhando para a frente. Vai ao passado apenas para responder algumas perguntas, mas logo volta ao presente. É nele que a intérprete fica mais confortável para ocupar o posto de grande diva da música brasileira e servir de inspiração para várias gerações de artistas.

1. Como você enxerga o novo disco "Deus é Mulher" dentro da sua vasta e eclética discografia? 

Estou tão feliz com esse trabalho que não paro de agradecer a Deus e a minha equipe, que fez tudo isso acontecer, assim como outros discos, caso de “Do cóccix ao Pescoço” e “ A Mulher do Fim do Mundo”,  que foram discos muito importantes na minha carreira e, sem dúvida nenhuma, na música brasileira. Eu me vejo em "Deus é Mulher". Ele é mais forte, mexe mais nas feridas, é mais explícito e também mais solar. Porque, apesar de tudo isso que estamos vivendo, este disco traz uma mensagem de esperança. Deus é mulher, sem dúvida nenhuma!


2. Além do fato "Dele" ser mulher, como você define Deus? 

Uma energia poderosa que está acima de qualquer gênero. Deus é tudo aquilo em que acreditamos...  


3. Qual a diferença de ser uma mulher hoje em dia em relação a sua juventude?

Apesar de termos que lutar diariamente por nosso espaço e nos fazer sermos ouvidas, mesmo com todo o machismo nosso de cada dia, a mulher consegue gritar, consegue outras que fazem ecoar esse pedido de socorro, de mudança... Mas temos muito que lutar ainda!


4. Você sempre passou a imagem de ser uma mulher liberada e realizada sexualmente, isso é verdade? Como lidar com a sexualidade na sua idade? É possível se sentir plena em relação a sexo nessa fase da vida? 

Esse assunto para mim nunca foi tabu. Acho que a mulher tem que falar e viver sua sexualidade como bem entender. Hoje, eu estou apaixonada por mim. Se eu soubesse que era gostosa, não tinha me doado tanto. Estou exercendo o amor próprio, estou nesta fase e bem realizada. Estou casada como meu trabalho e meu fãs.


5. Com tanto ódio e intolerância sendo disseminados nas redes sociais, lutar contra isso é uma questão de todos e não só das minorias. Você, que passou por várias situações parecidas na sua história e que virou um símbolo de força e coragem no combate ao preconceito, o que tem a dizer a quem ainda olha para isso com distanciamento?

Realmente, a minha luta é contra o ódio.  As pessoas estão muito amargas, mas não podemos nos deixar levar por esse sentimento. Vamos lutar, sim, vamos gritar, sim! Mas com muito amor e entendimento. Com discernimento e amor chegaremos ao destino que desenhamos mais vitoriosos. Amor e fé sempre!


6. Muitos dizem que o Brasil, apesar de multirracial, é um dos países mais racistas e preconceituosos do mundo, pois geralmente esse preconceito é velado. O que você pensa sobre isso?

Sim, o Brasil é muito preconceituoso, muito racista. Temos que enxergar as coisas como elas são, não podemos viver de aparência, e logo nós que somos todos negros e renegamos nossa origem. Falta orgulho de sermos quem somos.


7. Diante de toda essa corrupção, violência, abandono e caos social em que vive o Brasil, ainda é possível acreditar num futuro melhor? 

Eu ainda acredito no Brasil. Sei que está cada dia mais difícil, mas, se não mudarmos, se não acreditarmos em nós, quem vai acreditar? Sem esperança não há futuro.


8. Com uma biografia chegando, um musical em sua homenagem, reconhecimento da critica e, principalmente, reverência da nova geração, qual o balanço que você faz da sua carreira até aqui? Mudaria alguma coisa nessa trajetória?

Não mudaria nada, porque acredito que tudo já estava escrito. Hoje eu tenho dois empresário que cuidam de Elza como muito zelo, que são o Juliano Almeida e o Pedro Loureiro. Hoje eu me sinto segura, me preocupo somente com minha arte, talvez se eu os tivesse antes, minha história teria sido diferente. Mas não mudaria nada não, estou vivendo um momento muito feliz na minha vida pessoal e profissional.


9. A morte que te pregou algumas peças ao longo da vida, levando filhos e marido bem antes da hora, nunca te assustou? O que você tem a dizer para ela?

Eu dou um chute nela, nem vem que não tem!


Luciana Werner . Roda

Photos . Daryan Dornelles