As pinturas hiper-realistas a óleo de Luiz Escañuela fazem dele um novo expoente no mundo das artes


Nome: Luiz Escañuela Data de nascimento: 7 de outubro de 1993 País onde nasceu: Brasil Cidade onde nasceu: São Caetano do Sul Cidade onde cresceu: São Paulo Cidade onde vive: São Caetano do Sul Uma cor: Marrom Um trabalho de alguém da sua área que te marcou: "Concetto Spaziale Bianco”, de Lucio Fontana Principais ferramentas de trabalho: Pincel, cor e zoom (zoom virtual ou não) Qual o lugar em que gostaria de ver o seu trabalho exposto: MASP, MOMA, TATE, LOUVRE. Quem sabe um dia... Quem você convidaria para ser seu modelo vivo: Maria Bethânia Quem você gostaria que fizesse um retrato seu: William-Adolphe Bouguereau Se você pudesse levar somente uma imagem para Marte ela seria: "Escola de Atenas", pintura de Raphael

® Qual o momento em que a arte virou um caminho profissional na sua vida? Acho que com 22 anos. Pelo menos foi quando eu larguei o design e passei a me dedicar exclusivamente à pintura e à arte. Após finalizar a minha primeira série autoral, ganhei uma bolsa para estudar arte. Foi nesse momento que eu senti que não fazia mais sentido “fugir” de uma carreira como artista. Sempre foi o que fiz com mais paixão e dedicação. A partir disso comecei a fazer algumas vendas e pequenas encomendas. A projeção nas redes impulsionou a procura pelo meu trabalho. Aos 23 anos, passei a ser representado por uma galeria que faz a mediação com novos compradores e me dá liberdade para me preocupar mais com o meu trabalho e menos com as vendas.

® Quais são as maiores diferenças dos primeiros trabalhos até agora? A principal diferença está na conceituação. Minha técnica tem sido “desenvolvida” desde os 7 anos de idade e eu sempre soube que a representação humana era meu tema principal. Eu queria falar sobre humanidades. Mas, na época, eu me apropriava de filmes e histórias que conhecia e me tocavam de alguma maneira. Eu desenhava minhas “pessoas preferidas”. Hoje, eu as crio. Tudo o que quero falar sobre pessoas e imagens passa por um processo de criação que se mistura com pesquisa e escrita. O trabalho é conceituado e as referências passam por um crivo mais crítico. Isso tentando não perder a espontaneidade de quando eu era pequeno e desenhava meus filmes preferidos. 

® Quais são as suas maiores influências? A britânica Jenny Saville foi a primeira que me fez ter a plena certeza de que gostaria de trabalhar a pele, o toque e as massas corporais como poética principal do meu trabalho.  Ela reinventa a figura humana e une as potências da materialidade da tinta às particularidades do corpo e suas imperfeições. O húngaro István Sándorfi e o Neozelandês Jeremy Geddes são outras inspirações fortes. Em parte por conta da força da técnica hiper-real de ambos, mas, em especial, pela capacidade que possuem de atribuir um caráter extremamente onírico às obras, criando narrativas onde o hiper-real serve para a concepção de registros humanos físicos e mentais, concretos e lúdicos. No Brasil, há o aquarelista Marcos Beccari. Ele trabalha a luz de uma maneira fora do comum. O Marcos é muito feliz na seleção das imagens que retrata, consegue unir uma aura de introspecção e espontaneidade à figura humana que me inspira quando vou fotografar os modelos ou selecionar as possibilidades da luz no trabalho. Todos os dias ganho uma inspiração nova, estou sempre acompanhando o que tem se produzido na pintura contemporânea. 

® Seus trabalhos são desenvolvidos dentro de uma técnica especifica ou você se utiliza de todos os recursos disponíveis em prol da sua arte? A técnica específica é o óleo sobre tela, sem dúvida. Mas, antes disso, eu passo por um processo de concepção e conceituação. Primeiro eu escrevo bastante sobre o trabalho e de que forma farei com que um dialogue com o outro para fixar minha pesquisa tanto quanto conceito como quanto estética. Depois eu parto para uma sessão de fotos com modelos, estipulando as partes do corpo que serão fotografadas, a dramaticidade, luz, etc. A partir dessas fotos eu faço uma seleção do que serão os próximos quadros.  Após editar a foto base eu transfiro para a tela e é aí que o processo de óleo sobre tela começa. Mas, antes e depois disso, existem inúmeras técnicas necessárias para que o processo criativo flua de acordo com as minhas intenções.

® A fidelidade a uma técnica pode engessá-lo, artisticamente falando? Sim e não. Acho que todo o artista é um experimentador nato. A diferença é que cada experiência pode levar mais ou menos tempo. Minhas experiências demoram, então eu estou há quase três anos nessa pesquisa.  O aperfeiçoamento da técnica pode ser análogo ao enriquecimento do conceito e da poética. Então estar “engessado” numa técnica por um período pode significar que o artista está revigorando sua pesquisa artística. O importante é sentir quando a técnica está, de alguma maneira, asfixiando a poética. Porque aí o artista não se reinventa, não permite a entrada do novo. Um artista que trabalha com esculturas de mármore, por exemplo, pode passar a vida inteira trabalhando com essa mesma técnica. Se ela for o meio pelo qual ele diz coisas novas, ressignificando seu trabalho e evoluindo seus conceitos.


® Qual é o papel da tecnologia na concepção e resultado na sua arte? Eu trabalho muito com fotografias. Costumo dizer que as fotografias são o “primeiro esboço” para as minhas obras. Então, câmeras fotográficas, iluminação e coisas assim são essenciais para o meu processo criativo. Depois das sessões de foto eu faço uma seleção das imagens, que passam por edição. Por isso, os softwares de edição de imagens são muito importantes para a concepção. É neles que eu regulo as cores e aperfeiçoo as fotografias, para que elas possam ser a base da pintura. Durante o processo e após sua finalização, eu faço mais fotos para documentar e registrar a obra. Uma câmera fotográfica que consiga captar os mais variados detalhes na pele humana é essencial para a concepção e registro do trabalho.

® Quais são seus temas preferidos, aqueles que você mais gosta de trabalhar? Humanidades, interação de corpos, superação da fotografia, ludicidade, empatia. Acredito que as experimentações com recortes específicos da interação de corpos podem ser uma possibilidade nova. Estou iniciando minha pesquisa e existem inúmeros detalhes e capacidades de inserção que demoram em seu amadurecimento e, mais ainda, em sua execução. Hiper-realismo é uma técnica que demanda muito tempo. Os experimentos dificilmente são por impulso, precisam ser trabalhados e projetados antes de colocados em prática. A maneira como procuro trabalhar as particularidades dos detalhes para não generalizar a textura da pele como uma malha racional e repetitiva pode ser uma potência de enriquecimento para o trabalho. Na poética, eu procuro estabelecer uma força de representação humana que flerte com o passional e com o êxtase, ao mesmo tempo em que possua os requisitos para a concepção de uma “superimagem”, algo que se eleve à fotografia, ultrapassando-a, atribuindo um caráter de entidade aos retratos enquanto possíveis crônicas da espécie humana. ® Costuma trabalhar várias peças ao mesmo tempo ou prefere começar e terminar um projeto de cada vez? Até hoje eu nunca pintei duas telas ao mesmo tempo. Gosto e preciso dedicar todo o tempo possível para a pintura que está sendo desenvolvida, porque se não for assim ela vai demorar muito para ser finalizada. Prefiro estar focado em um trabalho de cada vez. ® Quais são os artistas contemporâneos que você acompanha com maior interesse? Eu acompanho artistas que trabalham com diferentes materiais e linguagens.  Kit King, Marco Grassi, Adriana Varejão, Jaime Lauriano, Ai Weiwei, Marina Abramovic, Ron Mueck, Jeremy Geddes, Marcos Beccari, Eloy Morales, Jenny Saville, Paulo Pjota.


® Dá para quantificar no seu trabalho o quanto é inspiração e o quanto é transpiração? A maior parte da inspiração vem antes de eu pegar no pincel e na tinta. Eu sei o que quero dizer, eu trabalho isso com a fotografia e imagino como vou impulsionar a imagem com a minha técnica. E escrevo bastante sobre, principalmente no que concerne à problemática entre a representação humana, o hiper-realismo e a arte contemporânea. A transpiração vem na hora da pintura. Pintar hiper-realismo é como pintar vários quadros dentro do mesmo quadro. O trunfo está em dedicar-se aos detalhes da pele, às individualidades dos poros, das manchas e dos pelos. Tudo isso depende da área retratada: pintar uma parte lisa da pele é diferente de pintar a palma de uma mão, que possui muitos veios e marcas, por exemplo. Isso demanda muito tempo e concentração. Às vezes eu termino de pintar uma área e parece que corri uma maratona, de tão cansado que fico. Sinto que, às vezes, entro numa espécie de transe, porque preciso exercitar a paciência e sentir que no momento só existem a pintura e eu. 

® Qual o preço da sua inspiração?  O processo de precificação é muito gradual. Um artista iniciante que vende seu trabalho por conta própria obviamente cobra mais barato. Quando a venda passa a ser a partir de uma galeria o valor sobe, porque é ela quem fará a mediação entre o quadro e os compradores. Ter uma galeria é muito bom para que os compradores tenham confiança na qualidade do trabalho e na importância da obra que eles estão adquirindo. Hoje, sou representado pela galeria Luis Maluf, que expõe meu trabalho em feiras dentro e fora do Brasil. Também faço muito da minha divulgação através de redes sociais, O Instagram é a minha maior “vitrine” e a melhor maneira que tenho para trocar com as pessoas, averiguar quem o meu trabalho está atingindo, o que as pessoas falam sobre ele, etc. Acho que o próximo passo é passar pelas mãos dos críticos que escrevem sobre arte para grandes portais. Dessa maneira o trabalho do artista fica muito mais solidificado e ganha uma “chancela de importância” para sua produção artística que será uma ferramenta tanto para os seus caminhos profissionais como para sua liberdade criativa.


Bob Cotrim . Roda Digital