O sotaque português de uma voz sem fronteiras


Nascida em Portugal, filha de mãe cabo-verdiana e pai mexicano, Sara Alhinho é uma artista de referências intercontinentais. Com o lançamento em 2018 do álbum "Ton di Petu", a cantora consolida uma carreira que começou aos 8 anos, quando participou da gravação do disco da mãe, a igualmente cantora Teté Alhinho. Foram muitas andanças pelo mundo até agora: além de ter morado em Cabo Verde e no México, ela rodou bastante pela Europa em turnês. Em suas canções, percebemos a riqueza dos vários gêneros que compõe o universo musical pouco conhecido de Cabo Verde. 


® Desde o lançamento do álbum, em meados de 2018, até agora, como está sendo a trajetória de "Ton di Petu"?


A trajetória tem sido boa e gratificante. Ao chegar a Portugal tive a sorte de conhecer bons músicos que abraçaram este projeto e com os quais tenho feito concertos cujo retorno do público tem sido muito positivo. A próxima etapa é a de tentar entrar num circuito de divulgação que permita dar a conhecer o trabalho a um público mais vasto.   


® Cabo Verde é muito conhecido por sua produção musical rica e diversificada. O que falta ser descoberto neste mosaico? 


Na minha opinião, o que se conhece sobre a música de  Cabo Verde é apenas a ponta do Icebergue. Há uma grande diversidade de gêneros, tais como talaia baxu, finason, tabanka, kanizade, entre outros, que não são tão conhecidos como a morna ou a coladera. Por outro lado, atualmente há muitos jovem artistas cabo-verdianos dentro e fora do país com projetos autênticos e diferenciados que merecem, na minha opinião, divulgação a nível internacional. 



® Quando você viveu no México, na sua adolescência, esteve muito perto de assinar contrato com uma grande gravadora e ter a oportunidade de entrar forte no mercado latino dos Estados Unidos. Hoje, com o mercado modificado e várias outras possibilidades, isso ainda te interessa?

Trabalhar de forma independente desde o meu primeiro álbum em nome próprio acabou por ser circunstancial, mas com o tempo levou-me a pensar que talvez pudesse ser um caminho a seguir. De momento, exploro esta possibilidade, o que tem-me permitido conhecer melhor o mercado da música, saber para onde caminha e perceber qual a melhor forma de nele me posicionar. Mas a possibilidade de trabalhar com grandes labels é sempre uma boa oportunidade de partilhar recursos. Se for feito com as pessoas certas, acredito que a projeção de uma carreira musical possa ser maior.


® Nascer e crescer num meio musical pode, às vezes, ajudar a criar uma visão muito lúdica da profissão. O curso superior em Marketing & Comércio Exterior, que você concluiu em 2015, te ajuda na condução da sua carreira e abre uma outra vertente profissional?


Sim. O Marketing permitiu-me pensar de forma mais estratégica e menos emocional, permitiu-me ver que, para além de ser uma artista, também sou um produto que procura um posicionamento no mercado. Ajudou-me a perceber de forma mais pragmática o funcionamento desse mesmo mercado e também mostrou-me o negócio da música em outras perspectivas.



® Sei que Djavan é uma grande referência na sua formação musical. Fale um pouco sobre ele e sobre as influências musicais que acompanham você e podem ser percebidas no seu trabalho.


Aprendi a tocar a guitarra de ouvido e sozinha, lendo as cifras dos volumes 1 e 2 do SongBook de Djavan, oferecidos pela minha mãe. Com Djavan descobri as metáforas, a beleza dos acordes dissonantes e da condução harmônica menos óbvia. Para mim, assim como para muitos colegas músicos da minha geração, ele foi uma fonte de inspiração e uma referência. Ainda sonho conhecê -lo e tocar com ele, o que aliás esteve muito perto de acontecer quando, em 2011, fui convidada para abrir o seu concerto em Cabo Verde, o que infelizmente não se materializou devido ao cancelamento do concerto por motivos de saúde.



® Quais os próximos projetos? 


Como é sabido, a natureza cambiante e circunstancial da vida artística demanda muito foco e organização por parte dos seus intervenientes no sentido de articular os aspectos pessoal, artístico, profissional e material.

Nesse sentido, o processo de estabelecimento como artista residente em Portugal (uma vez que vivi os últimos oito anos entre Cabo Verde e Canárias) tem constituído um desafio que levo adiante com determinação, mas também uma inspiração que me abre uma perspectiva de expansão no âmbito da produção musical em diversas vertentes. Mas, para já, ainda é cedo para revelar de que forma é que isso poder-se-ia materializar, até porque as ideias são muitas, mas precisam do seu tempo de maturação.

Por agora, o objetivo é prosseguir com a divulgação do álbum "Ton di Petu" e, ao longo desse percurso de crescimento artístico, ir preparando o próximo trabalho discográfico, quem sabe para 2020.


Luciana Werner . Roda

Photos . Daryan Dornelles