Zé Vito, um brasileiro "Além Mar"


"Além Mar", título do novo álbum de Zé Vito, tem muitos significados na carreira do cantor, compositor, músico e produtor brasileiro. Recém radicado - e já totalmente ambientado - em Lisboa, ele conta como chegou até aqui e aposta no aquecido mercado europeu para divulgar seu trabalho. 


® Conta um pouco dessa trajetória como músico que saiu de Ribeirão Preto, passou pelo Rio de Janeiro e foi parar em Lisboa?

É uma trajetória doida. Saí de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, em 2005. Eu tinha 19 anos e tocava com bandas locais nos bares da cidade e da região. Uma dessas bandas resolveu se aventurar no Rio e ver o que poderia acontecer. Entrei nesse bonde e de lá não voltei mais. A banda acabou retornando alguns meses depois e eu decidi ficar, entrei no curso de Produção Fonográfica na universidade e comecei a estudar melhor essa profissão. Passados alguns anos, eu já estava com minhas bandas como o Sobrado 112 e a Abayomy Afrobeat Orquestra. Aprendi muito no Rio, conheci pessoas incríveis, vivi coisas inesquecíveis, em um Rio de Janeiro que já não existe mais... Depois, já mais experiente, comecei a acompanhar alguns artistas, como o Jards Macalé, com quem eu toquei por 5 anos, e a Céu. Lancei meu primeiro disco solo em 2014, mas sempre me dividindo entre acompanhar artistas e fazer meu trabalho. Foram 13 anos, até que eu percebi que as coisas não iam andar como eu gostaria no Rio. O mercado é muito fechado, as panelas são sempre as mesmas, e o carioca em geral não tem hábito de investir em música nova, os artistas novos não tem onde tocar e crescer, é muito difícil. Fiz uma turnê com o Macalé em 2017, pela Europa, e passamos por Portugal. Eu já tinha vindo outras vezes em turnês e viagens a passeio. Me organizei um pouco antes, estiquei minha estadia por uns dias e contactei algumas casas de show que, para minha surpresa, foram muito solícitas. Percebi que tinha uma cena acontecendo. Depois da turnê voltei decidido a me mudar. Conversei com minha mulher e ela gostou da ideia, além de enxergar boas perspectivas profissionais para ela também. E já estou aqui em Lisboa há um ano.


® O Brasil sempre revelou grandes guitarristas. Como é a sua relação com o instrumento?

Vejo a guitarra e o violão como uma extensão do meu corpo e do meu pensamento. Eu toco um pouco todo dia. Componho sempre com o violão ou guitarra na mão, e sempre através de riffs que aparecem quando pego o instrumento. Sou apaixonado por guitarras antigas, marcas desconhecidas, guitarras italianas e com sons diferentes. Eu me emociono vendo bons guitarristas tocando, esse instrumento mexe demais comigo.



® O novo trabalho, "Além Mar", reflete a sua caminhada musical até aqui ou está mais direcionado nas experiências de agora?

Eu acho que esse trabalho reflete um pouco das duas coisas. Fiz outros três discos solo antes do "Além Mar", e acho que esse disco reflete uma certa maturidade que a gente adquire na estrada, na vida, no estúdio e no palco. É um disco onde eu resolvi ser mais direto nas composições, mais simplista. E ele tem muito desse processo de mudança. Mudei de país, de cidade, mudei tudo! O som está mais maduro, de quem já viveu mais coisas.


® O fato de estar morando em Portugal possibilita vôos maiores na sua carreira?

Sem dúvida, essa é uma das minhas maiores intenções. Agora em 2018 toquei em um festival muito legal na Catalunha, na cidade de Lleida. Tenho feito contatos com diversos festivais de vários países diferentes. No Brasil, é difícil esse trânsito porque é muito caro deslocar uma banda através do oceano. Se você já está na Europa, você tem mais chances de entrar no circuito. Aqui o mercado é gigante, com casas de show e festivais. A apreciação musical das pessoas é mais respeitosa, as pessoas vão para ver e ouvir, a música não é uma coisa secundária, um pano de fundo para as pessoas dançarem. Acho que a partir de 2019 muita coisa vai rolar, e certamente com vôos mais distantes.



® Como você vê a cena musical em Portugal? Quais os artistas portugueses que não saem do seu podcast?

Acho que a cena musical está numa fase muito boa, seguindo o momento bom que o país vive. Os portugueses estão sentindo orgulho da sua língua e do seu país, apostando como nunca em canções em português, algo que não era tão comum tempos atrás. Existem muitos novos artistas de qualidade. O país é pequeno e isso às vezes limita um pouco as coisas, mas, em geral, tem um circuito bastante aquecido. É um dos países que mais tem festivais de verão, devem ser mais de 30. Os artistas que eu gosto de ouvir são Boss AC, Márcia, Sara Tavares, Madrepaz, Capitão Fausto, The Legendary Tigerman, Antonio Zambujo, Joana Barra Vaz, Marco Oliveira...são muitos! Gosto também dos mais antigos, que pra mim são mestres. Zeca Afonso e Sergio Godinho são uns dos melhores compositores do mundo na minha opinião.


Ivan Costa . Roda

Photos . Daryan Dornelles