O diretor Pep Gatell nos conta como é o processo de criação do grupo espanhol La Fura Dels Baus.

24/05/2017

Os primeiros espetáculos do La Fura Dels Baus aconteceram nas ruas de Barcelona, em 1979. Daqueles passos iniciais até agora, o caminho do grupo de teatro urbano foi longo, produtivo e inspirador. A trupe virou de cabeça para baixo o conceito de teatro, se utilizando dos mais variados recursos tecnológicos e técnicas de palco para poder interagir melhor com o público, transmitir e receber mensagens dos espectadores/participantes das performances que apresenta pelos quatro cantos do mundo. Em 1992, a companhia foi contratada para conceber e executar as cerimonias de abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona, transmitidas ao vivo e aplaudidas por mais de 500 milhões de pessoas. Ao longo desses quase 40 anos de existência, o La Fura se mantém fiel à proposta de pesquisar novos recursos tecnológicos e combinar linguagens cênicas para construir performances fascinantes e interativas, que se apropriam de elementos que vão da clássica ópera ao pós-moderno mundo digital. Querendo entender melhor o segredo do sucesso dessa exótica alquimia, a Roda fez algumas perguntas ao diretor desse premiado grupo, Pep Gatell. 

 

L.W- O uso da tecnologia não é uma novidade na linguagem de vocês. Sendo assim, o novo espetáculo, "MURS", pode ser considerado uma evolução natural desse processo ao longo de todos esses anos?

 

P.G- Sim. Fomos adquirindo tecnologia à medida que o grupo foi crescendo. No princípio tínhamos um aparelho chamado MIDI, por exemplo, e podíamos disparar muitas coisas de uma vez através da partitura musical. Depois começamos a ter vídeo, em seguida passamos a nos preocupar muito com as imagens e fizemos um espetáculo com óculos de 3D, quando ainda não havia nada disso, que agora já é mais comum. Hoje, podemos comprar por 300 euros câmeras de 360 graus, e óculos cada dia melhores, mais baratos e com mais tecnologia. Estamos trabalhando em um espetáculo que será feito em 360 graus. Vamos transportar o espectador parar em outro mundo em determinados momentos. Temos uma preocupação constante com a tecnologia, em mostrar o que está sendo usado de novo, o que fascina mais, o que vai nos ajudar a explicar mais coisas que explicamos sem essa ferramenta. A tecnologia pode romper o tempo normal que tem o teatro, um tempo que posso chamar de antiquado, por mais interessante que seja. Na vida real e atual temos muitos inputs no nosso cotidiano. Os jovens estão aí com os celulares, os fones no ouvido, fazem 30 mil coisas ao mesmo tempo e ainda falam comigo. Isso me encanta e busco esse tempo em meus espetáculos.

  

L.W- Vocês acreditam que a tecnologia é realmente uma ferramenta capaz de derrubar os muros do mundo contemporâneo? 

 

P.G- Não, acho que a tecnologia só fez criar outros muros, só que muros invisíveis. O mundo tem os muitos ricos e os muitos pobres e quem não tem dinheiro não pode derrubar esses muros, pois não tem acesso à tecnologia, não pode adquiri-la. Antigamente os muros eram de pedras e havia umas pessoas em cima com arco e flecha dificultando a passagem, mas ainda era possível pular, derrubar. Agora é mais difícil, quem não tem dinheiro está fora, não pode ultrapassar os muros invisíveis. Isso é muito perverso.

 

L.W- A utilização de várias técnicas artísticas é um dos alicerces do que se chama de  "linguagem La Fura", mas qual o segredo para manter essa química depois de tanto tempo juntos?

 

P.G- Usamos a tecnologia como instrumento para explicar algo, ela não é o propósito em si, não é o espetáculo. Ela é uma ferramenta a mais, ela é como um ator, como uma luz, tudo é usado para explicar algo, tudo serve para um mesmo propósito, e nada é superior a nada. A cenografia não ganha do ator, o ator não ganha das luzes, as luzes não ganham da música... Tudo está ali para se combinar, desaparecer e mostrar uma outra coisa. Essa é a alquimia, saber equilibrar e misturar da maneira certa para alcançar o objetivo.

 

L.W- É projetada alguma adaptação nos espetáculos em função das distâncias  geográficas e diferenças culturais do lugar em que vocês estejam se apresentando?

 

P.G- Quando falamos de massa, as ações e reações são normalmente as mesmas, o modo como as pessoas circulam, como agem, se movimentam. O que pode acontecer é, dependendo da política do país, do momento que atravessa, recebermos algumas mensagens diferentes. Quando nos apresentamos em São Paulo, por exemplo (2016), as pessoas gritavam "Fora Temer", expressando um momento especial do país. Cada país mostra sua própria identidade no espetáculo. A reação só muda um pouco em países mais frios. Neles, o público tem uma reação mais reservada, se move menos, caso de países do norte da Europa, por exemplo. No Brasil, a reação é fantástica.

 

L.W- O "LA FURA DELS BAUS" cria todas as trilhas sonoras para os espetáculos e têm uma relação muito intensa com a música. Como é o processo de criação musical de vocês?

 

P.G- A música acompanha o mesmo processo de criação, tudo é feito com o objetivo de explicar algo. Então criamos a música pensando em todo o resto: no que o ator quer dizer, o que determinada tecnologia ou iluminação quer mostrar. Colocamos mais pressão musical ou menos pressão musical de acordo com o que pede cada momento desse todo. Fazemos isso com os ambientes, as atuações e os efeitos especiais também. Tudo é para explicar uma outra coisa, tudo busca essa alquimia da qual falei. 

 crédito imagens . Iñake Pardo

 

 

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